Blog | Para Além do Cargo
Por que a frustração com o trabalho costuma acompanhar você de um emprego para o outro.
Nova empresa, novo cargo, salário melhor. Seis meses depois, a mesma sensação de vazio. Neste texto, falo sobre por que a insatisfação com a carreira costuma se repetir, o que a psicanálise chama de repetição e o que vale entender antes da próxima mudança.
A mudança parecia a solução. A empresa antiga era o problema: a liderança, o ritmo, a falta de reconhecimento. Você estudou o mercado, negociou bem e conseguiu a vaga. Os primeiros meses foram de alívio.
Até que, aos poucos, a sensação conhecida volta. Os nomes mudaram, a sala mudou, o crachá mudou. A insatisfação, não.
Se isso já aconteceu com você uma ou mais vezes, vale considerar uma possibilidade desconfortável: talvez parte do que incomoda não esteja só no lugar, e sim na forma como você se relaciona com o trabalho.
Freud observou, ainda em 1914, que tendemos a repetir aquilo que não conseguimos elaborar. Em vez de lembrar e compreender um conflito, acabamos revivendo-o em situações novas, muitas vezes sem perceber.
Na carreira, isso pode aparecer de muitas formas:
Não se trata de culpa. Trata-se de perceber que o que se repete diz algo sobre você, e que isso pode ser entendido.
Existe uma insatisfação específica, comum em quem fez tudo “certo”: estudou, se especializou, construiu uma condição financeira confortável. Por fora, a carreira deu certo. Por dentro, falta alguma coisa.
Nesses casos, é comum a pessoa se cobrar ainda mais, como se o problema fosse falta de gratidão. Mas a pergunta talvez seja outra: esse caminho foi escolhido por desejo ou por expectativa? Muitas carreiras são construídas para corresponder ao que a família, a faculdade ou o mercado esperavam. O resultado pode ser bem-sucedido e, ainda assim, não ser seu.
Nem toda insatisfação é repetição. Há ambientes de trabalho realmente adoecedores, lideranças abusivas e empresas cujos valores não conversam com os seus. Nesses casos, sair pode ser a decisão mais saudável.
A diferença está em sair sabendo o que você está deixando para trás, e não apenas fugindo de um desconforto que pode reaparecer na próxima porta.
Não é preciso responder tudo de uma vez. Às vezes, só formular a pergunta certa já muda a forma de olhar.
Quando o padrão fica visível, a decisão deixa de ser uma fuga e passa a ser uma escolha. Você pode decidir ficar e mudar a forma de se relacionar com o trabalho, ou decidir sair com mais clareza sobre o que procura.
Na psicanálise, esse trabalho acontece pela fala. Ao contar a sua história, você passa a reconhecer o que se repete, o que deseja e o que teme. A decisão continua sendo sua, mas deixa de ser tomada no escuro.
Antes da próxima mudança
Se você já trocou de empresa e a sensação voltou, a terapia pode ajudar a entender o que se repete antes de decidir o próximo passo. Assim, a próxima mudança, se vier, deixa de ser uma fuga.